VOCÊ ME PERCEBE?

 

VOCÊ ME PERCEBE?

 

Cinco milhões de individualidades. Cinco milhões de identidades. Cinco milhões de invisíveis.  Cinco milhões de almas. Cinco milhões de escravizados. Números inexatos? Provavelmente, foram mais. A história não está pronta e acabada, e pode ser revisada. Intensidades na exploração: trezentos e cinquenta anos de escravidão. O reconhecimento pela reparação se avoluma e urge. A naturalização da dor não minimizou os sofrimentos. Romantizaram, “explicaram” e não resolveram. Subterfúgios e desigualdades foram o que sobrou. Um diagnóstico histórico se faz inevitável.

Vidas mercantilizadas, colonizadas e escravizadas. Interesses indecorosos ofuscaram identidades. Cultura reprimida e esmaecida. Cicatrizes amalgamadas com as agonias da alma. Dores incuráveis, sequelas impagáveis. Passado que não é passado, se fez velado. Sorrisos nostálgicos e apagados. Horrores fazem parte de um histórico que mantém as feridas abertas. Os tumbeiros estão disfarçados, camuflados e até voam.  

Necessidades urgentes “é” o que temos! As incoerências entre as casas grandes e as senzalas se afloram. Soluções abandonadas que se tornaram dívidas humanitárias. Lei inconclusa. Falta o “ouro” do após. Obviedade de quem não entendeu o óbvio. Vidas entregues a si mesmas. Coisificação pelas desumanidades. Narrativas “eurocêntricas” do é o que não é. Expectativas pessimistas. Falta o brilho no olho quando o verbo é negro.

A invisibilidade limita a empatia.  É improvável se pôr no lugar do outro, quando a nebulosidade está presente. Quando se enxerga só a ponta do iceberg, estrutura-se o erro. Resistência e amargura foram normas de sobrevivência Dissimulação e oportunismo ditam regras “meritocráticas” para os desiguais. Que todas as cores sejam antirracistas.  Fomos o último país do mundo ocidental a “abolir” a escravidão; que não sejamos os últimos ao conserto histórico.  

Preciso do coletivo para que eu possa ser eu. A solidão me apequena sem o outro. O outro é parte de mim, e eu sou parte dele.  Sou universal. Sou comunidade, sou miscigenado, sou plural. Sou gente. Sou identidade, sou individualidade, sou hibrido. Sou depressão. Sou banzo, sou angústia, sou melancolia. Sou resistência. Sou fala, sou berro, sou silêncio. Sou humanidade. Sou compaixão, sou gratidão, sou amor. Somos todos. Ubuntu! Sou, por que sou você.

Prof. Esp. Iziquiel Aparecido de Carvalho – Zico.